LIVRO: O CANTO NA ESCOLA DE 1º GRAU

LIVRO: O CANTO NA ESCOLA DE 1º GRAU

O canto na escola de 1º. grau. Uma nova abordagem com proposição de um modelo para desenvolvimento da expressão músico-vocal de crianças e adolescentes.

No ensino-aprendizagem da Música nas escolas, em todas as épocas, tem sido dado destaque especial à atividade vocal e à busca da expressão vocal através do canto coletivo. Isso porque nada existe de mais humano do que a voz, colocando-se os outros instrumentos como prolongamentos artificiais do próprio homem.
“O homem que canta é seu próprio instrumento” (Kaelin25, p. 1). O canto coletivo tem demonstrado, no decorrer do tempo, seus efeitos positivos sobre o desenvolvimento musical dos que dele participam. Entretanto, a prática do canto em conjunto colocou o problema da educação vocal. Até bem pouco tempo, a literatura sobre a formação e o desenvolvimento da voz humana era destinada exclusivamente ao cantor profissional. Atualmente, porém, já se dirige, também, ao cantor amador, muito embora em ambos os casos esses estudos tratem da voz do adulto, cuja função vocal muitas vezes se apresenta defeituosa.
A voz infantil parece estar relegada a um segundo plano, talvez porque se parta do pressuposto de que é sã e perfeita. O contato freqüente com crianças nas escolas  atesta, no entanto, que, devido principalmente às influências do ambiente e à falta de cuidado e proteção dos adultos com os quais convive no lar e na escola, um grande número de crianças apresenta um desenvolvimento antinatural e defeituoso, que impede o uso pleno e harmonioso da função da voz.
Uma das finalidades da presente pesquisa foi justamente chamar a atenção dos educadores para a necessidade de delimitar o campo dentro do qual a voz possa desenvolver-se naturalmente, de modo a passar pela muda vocal e atingir a plenitude da voz adulta sem perturbações. Juntamente com Nitsche34, poder-se-ia dizer que o professor é semelhante ao jardineiro que protege a planta e cria condições favoráveis a seu crescimento, deixando-a desenvolver-se por seus próprios meios,mas que,em caso de necessidade, a poda ou co-13loca-lhe um ponto de apoio. Exige, pois, do professor intuição e conhecimento, uma vez que é preciso ter clara compreensão da função da voz para saber usá-la corretamente e, ademais, poder reconhecer seus defeitos, determinar as causas destes e aplicar as necessárias medidas de correção. Pois, como lembra Nitsche34, “só quem fala e canta corretamente pode ser guia de outros no desenvolvimento sadio da voz” (p. 8).
Por outra parte, os pedagogos da Música são unânimes em reconhecer que o canto desempenha o papel mais importante na educação musical da criança. Segundo Willems47, a canção agrupa, de maneira sintética, melodia, ritmo e harmonia, e é o melhor meio para desenvolver a audição interior*, considerada a chave da verdadeira musicalidade. No contexto atual, no que se refere à educação da voz, observações e depoimentos de estudiosos, bem como informações provindas da experiência de professores de Música e dos próprios autores deste trabalho, têm indicado que a má utilização do instrumento vocal acarreta à criança uma voz rouca e gutural, sem modulações e com altura e timbre naturais alterados, ainda que, em princípio, a natureza lhes assegure uma voz sadia. Além disso, tem-se verificado que o ensino de certas canções, que levam a criança a cantar fora de seu registro e tessitura própria, força o emprego dos músculos vocais.
Acredita-se que essas falhas e deficiências, evidenciadas no desenvolvimento vocal do aluno, estejam relacionadas com a inexistência de uma formação adequada do professor de Educação Musical, no que diz respeito à prática do canto e ao emprego de seu próprio instrumento vocal, e sejam agravadas, ainda, pelas influências perniciosas da poluição sonora e do ar no meio ambiente. Diante desse contexto, levanta-se uma interrogante fundamental, que o presente estudo procura responder: A seleção do repertório vocal nas escolas de 1º grau obedece a critérios que atendam às diferentes etapas da evolução do aluno, favorecendo o desenvolvimento sadio da função vocal nos seus múltiplos aspectos?
Sem a pretensão de responder completamente ao problema e apresentar soluções, este trabalho, a partir dos dados concretos da realidade das escolas estaduais do Rio Grande do Sul, visou a explorar um campo onde as controvérsias abundam, como comprova a revisão da literatura, para uma tomada de posição com vistas a traçar perspectivas e direções que orientem o ensino nesse importante setor da Educação Musical. Para tanto, buscou-se, a partir de dados colhidos através do levantamento do repertório vocal trabalhado nas escolas de 1º grau das zonas urbanas das delegacias de educação do Estado, e da análise estrutural do repertório que constitui a amostra, propor um modelo de ensino técnico-vocal que, após a devida testagem, possa constituir-se num modelo a ser adotado naquelas escolas.

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